25/11/2016 às 12h24min - Atualizada em 25/11/2016 às 12h24min

Dentistas apostam em formas de tratar a cárie sem o motorzinho

Folha de S. Paulo | Portal da Enfermagem

Um mascarado com luvas e máscara liga um barulhento aparelho e o aproxima do rosto de uma pessoa. Poderia ser um filme terror, mas é só uma visita ao dentista.

Alguns profissionais, cientes do terror causado pelo motorzinho, e avaliando a severidade de cada caso, têm deixado o aparelho de lado e, em certos casos, até mesmo largado as cáries quietas em seus cantos.

O tratamento costumeiro, pelo menos até então, era a remoção completa, na qual toda área cariada era extirpada. O protagonista da tarefa, claro, era o motorzinho, aparelho que, com auxílio de brocas em alta rotação, desgasta o dente. (A descrição não deixa de ser assustadora).

Seguindo uma filosofia odontológica de mínima intervenção, muito desse estresse pode ser evitado e é possível até não fazer absolutamente nada em relação a uma cárie. É igual quando você tem uma pinta e procura um dermatologista, afirma José Imparato, presidente da ABO (Associação Brasileira de Odontopediatria) e professor da USP. Você vai controlar a lesão da cárie assim como controla pintas no corpo, sem precisar remover todas.

A cárie, em geral, pode ser dividida em duas partes. Uma delas é a infectada, cheia de bactérias, amolecida e morta. A outra é a área afetada, mais seca e com menos bactérias. A ideia é fazer uma remoção seletiva, ou seja, retirar somente a primeira parte.

É possível fazer uma remoção mecânica ou unir a ação de instrumentos manuais com a remoção química. Entram, em ação, então, compostos que conseguem amolecer a cárie ainda mais, facilitando a remoção seletiva. Nesse caso, géis à base de papaína (enzima extraída originalmente do mamão) são uma opção.

O tratamento com gel é conservador. Na maioria das vezes nem usamos motor, diz Sandra Kalil, criadora de um dos produtos à base de papaína disponíveis no mercado. Ele reage com o tecido cariado e não com o normal. Tira a terra ruim sem afetar a boa, diz Alexandre Magno, consultor científico de outro desses produtos, recém-lançado.

Bisnagas de um dos produtos, por exemplo, podem ser encontrados por volta de R$ 80 e ser usados para entre 40 e 50 aplicações (cerca R$ 2 por aplicação). "O tratamento não é mais caro por causa disso [do gel], pode ser até mais barato", diz Kalil. Lasers também fazem parte do arsenal do tratamento dentário.

Finalmente, não remover nada também é uma opção dentro da filosofia de mínima intervenção. Se a lesão da cárie for pequena e não estiver muito profunda na dentina (camada interna do dente), o buraco pode ser selado com substâncias adequadas, sem a necessidade de remoção. Esses procedimentos menos invasivos são agrupados sob a sigla ART (Tratamento Restaurador Atraumático, na sigla em inglês).

Nenhum deles, contudo, substitui completamente o uso do motorzinho. São maneiras complementares de tratar a cárie, dependendo das condições do paciente, dizem especialistas.

DIAGNÓSTICO

As novas diretrizes da cariologia (área do conhecimento que estuda cáries)afastam o motorzinho da boca das pessoas menos por novas tecnologias e mais pela preocupação com diagnósticos precisos. Tratamentos invasivos vêm perdendo espaço, é uma tendência, afirma o cirurgião-dentista Rodrigo Moraes. Ele diz que antes se acreditava que um pontinho preto no dente contaminava toda a área ao redor.

José Imparato compara a situação com cirurgias cardíacas que antes precisavam da abertura do peito e hoje são resolvidas com pequenas incisões. É claro que a pessoa vai preferir a menos invasiva.

Às vezes a lesão não é visível. Quem se incomoda é o dentista, não o paciente, diz o presidente da ABO. Ele afirma que, se antes o explorador dental (o pequeno gancho dos dentistas) era passado bruscamente pelos dentes à procura da cárie, hoje o diagnóstico se baseia mais no visual e em radiografias.

Contudo, manter bons hábitos de higiene bucal, como escovação, uso de fio dental e escovas interdentais é o melhor tratamento não invasivo, segundo Moraes. Em tempos de crise as pessoas tendem a negligenciar a ida ao dentista. É muito mais caro depois reconstituir dentes estragados do que investir um pouco na saúde bucal, afirma o cirurgião-dentista.

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