Início do ano como ponto de virada: por que agora é estratégico para o turnaround das empresas

‘Reset’ no planejamento cria janela para a correção de rotas com método, e não apenas com reações a crises pontuais

Por ALINE TELLES
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Foto: Freepix

O início do ano costuma ser visto pelas empresas como um período de retomada e reorganização. Para negócios que enfrentam pressão de caixa, margens cada vez mais apertadas e dívidas desalinhadas com o ciclo operacional, pode representar mais do que um recomeço simbólico: um momento estratégico para iniciar um processo estruturado de turnaround, antes que a urgência passe a ditar as decisões.
A virada do calendário concentra fatores que favorecem escolhas bem fundamentadas. É quando ocorrem a revisão de orçamento e metas, a renegociação de contratos e linhas de crédito e a reorganização de indicadores internos, com o fechamento do exercício anterior e a definição de novos parâmetros de gestão. Esse “reset” no planejamento cria uma janela rara: a empresa ainda tem tempo para corrigir a rota com método, e não apenas reagir a crises pontuais.
Turnaround não é promessa de milagre. É disciplina: diagnóstico rápido, decisões difíceis e execução consistente. E o início de um novo ciclo tem uma vantagem prática: é quando o empresário está com o mapa do ano inteiro sobre a mesa”, afirma Felipe Porfírio Granito, sócio do Granito Boneli Advogados.
Na prática, o advogado explica que o início do ano faz com que três pontos críticos ganhem protagonismo, especialmente em empresas que entram em ciclos de aperto financeiro:
  • O primeiro é a estrutura de capital e a previsibilidade. Sem clareza sobre fluxo de caixa e compromissos futuros, a empresa negocia sempre “de costas para a parede”. No começo do ciclo anual, porém, é possível organizar dados, simular cenários e ajustar prazos, garantias e a concentração das dívidas com mais margem de manobra.
  • Outro ponto central é o uso do crédito. O início do ano facilita separar o que é crédito saudável (aquele que impulsiona um modelo de negócio que funciona) do crédito usado apenas para cobrir déficits recorrentes. “Quando a dívida vira rotina para pagar o mês, ela deixa de ser ferramenta e passa a ser anestesia”, pontua Granito.
  • Há ainda a questão dos covenants, que são cláusulas previstas em contratos de crédito que definem limites financeiros que a empresa precisa cumprir, como nível de endividamento, geração de caixa ou resultados mínimos.
Um erro comum é a empresa só perceber essas obrigações quando elas já foram descumpridas. Com o orçamento em revisão, fica mais fácil acompanhar esses indicadores, definir planos de ação e alinhar a conversa com os credores antes que o aperto vire uma crise.
Alguns sinais indicam que o ponto de virada pode, e deve, ser agora. Entre eles estão a dependência constante de crédito para manter a operação básica, a queda de margens sem que a estrutura de custos tenha sido ajustada à nova realidade do mercado, o aumento da concentração de dívidas, que reduz o poder de negociação, e a falta de clareza sobre prioridades de caixa e metas realistas para os 90 dias seguintes.
“O início do ano não resolve o negócio sozinho. Mas é quando ainda dá para escolher estratégia em vez de emergência. E a diferença entre as duas, quase sempre, é o preço que se paga”, conclui Granito.

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FONTE: Felipe Porfírio Granito, sócio do Granito Boneli Advogados