A escolha de não votar: uma reflexão sobre a democracia brasileira

Por JúLIA BOZZETTO
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Democracia é o regime da liberdade. Pelo menos é assim que gostamos de defini-la. Mas há uma contradição que raramente enfrentamos: se somos livres para escolher nossos representantes, por que não somos livres para escolher participar ou não do processo?
No Brasil, votar não é apenas um direito, é uma obrigação. Quem não comparece precisa justificar. A liberdade política começa sob condicionamento. Confiamos no cidadão para decidir os rumos do país, mas não confiamos o suficiente para deixá-lo decidir se quer ou não participar da escolha.
A maioria das democracias desenvolvidas não adota o voto obrigatório. Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Canadá, Japão. Nesses países, votar é um direito exercido por quem deseja participar. E justamente por isso o voto carrega peso: ele não é fruto da coerção legal, mas da decisão consciente.
Há uma distinção importante que costuma ser ignorada. Votar branco é participar sem escolher candidato. Votar nulo é rejeitar as opções disponíveis. Já escolher não participar é outra coisa: é uma posição política distinta, que expressa discordância com o processo naquele momento. No modelo obrigatório, essa terceira postura não é plenamente reconhecida; é tratada como ausência irregular.
Ser contra o voto obrigatório não significa dizer que “o povo não sabe votar”. Não é elitismo. Não é desprezo pelos mais pobres. É o oposto: é confiar que a cidadania não precisa de tutela estatal para existir. Liberdade política não deveria depender de multa simbólica ou da burocracia da justificativa.
O voto obrigatório produz efeitos colaterais pouco debatidos. O primeiro é a desvalorização do voto. Quando o comparecimento é garantido por lei, partidos e candidatos partem de uma base assegurada. Não precisam convencer o cidadão a participar; apenas disputam votos já compulsoriamente presentes. O esforço político se desloca do convencimento para a captura.
O segundo efeito é a transferência de responsabilidade. Quando o resultado decepciona, surge o discurso fácil: “o povo não sabe votar”. Mas se a participação é forçada, parte do problema é estrutural. Obriga-se o comparecimento e depois culpa-se o participante.
Imagine um cenário diferente: quem deseja votar se cadastra e participa; quem não deseja, simplesmente não comparece. O candidato deixa de contar com uma massa eleitoral garantida. Não existe presença automática. Cada voto precisa ser conquistado desde o interesse inicial.
E há um ponto decisivo: um grupo de cidadãos que opta por não participar continua sendo cidadão. Continua pagando impostos. Continua sujeito às decisões do Estado. E continua tendo o direito de cobrar qualquer eleito. Sua ausência não é omissão; é escolha.
Sem comparecimento garantido, a régua da política sobe, porque o candidato precisa primeiro despertar interesse e depois conquistar apoio; sem base automática de eleitores, a seleção tende a melhorar, já que a permanência no jogo depende de qualidade e credibilidade; e sem coerção, a legitimidade não é presumida, mas construída no convencimento real.
Talvez a questão não seja se o voto obrigatório fortalece a democracia. Talvez a questão seja se ele a acomoda demais. ‎


*Pedro de Medeiros é filósofo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, engenheiro mecânico pela PUC e pós-graduado em Gestão de Pessoas, consultor de multinacionais, palestrante e escritor.  

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