Mulheres empresárias não têm dificuldade de decidir. Elas têm dificuldade de saber o que é delas para decidir. 

Quando a líder decide tudo — do estratégico ao operacional — ela não está sendo responsável: ela está sendo o gargalo do próprio negócio. A saída não é delegar mais. É classificar primeiro.

Por Bendita Letra
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Alessandra Freitas


O Brasil registrou mais de 2 milhões de novos pequenos negócios liderados por mulheres em 2025, um recorde histórico, segundo levantamento do Sebrae com base em dados da Receita Federal. O número supera em 320 mil o verificado no ano anterior e revela um movimento consistente de crescimento. Mas crescer em quantidade não significa crescer em sustentabilidade. Enquanto mais mulheres abrem empresas, uma parte considerável delas tropeça no mesmo obstáculo silencioso: a dificuldade de saber o que, de fato, cabe a elas decidir.

"A empresária não tem problema de tomar decisão. Ela tem problema de clareza sobre o que é dela para decidir", afirma Alessandra Freitas, CEO da Anima Impacto Consultoria e especialista em liderança feminina aplicada à gestão de pequenas e médias empresas. Para ela, o diagnóstico mais comum entre as clientes que chegam até a consultoria não é insegurança nem falta de conhecimento técnico, é a ausência de uma estrutura que separe o que exige a presença da líder do que pode e deve ser conduzido por outras pessoas.

O efeito prático disso tem nome: a empresária vira o gargalo do próprio negócio. "Quando a líder decide tudo, do contrato com um grande cliente ao tom do post nas redes sociais, ela não está sendo responsável. Ela está sendo o freio da empresa", diz. A consultora é direta ao apontar que o problema não se resolve simplesmente delegando mais tarefas. "Delegar sem classificar é só empurrar o caos para outra pessoa. O primeiro passo é mapear o que pertence ao nível estratégico, o que é gerencial e o que é operacional. Só depois faz sentido falar em delegação".

Na prática, esse emaranhado de decisões tem origem em algo que vai além da gestão, está ligado à forma como muitas mulheres constroem sua identidade dentro do negócio. "A empresa se torna uma extensão delas. E aí qualquer descentralização parece abandono, não autonomia", observa Alessandra. Esse padrão, segundo ela, é especialmente recorrente em negócios de pequeno e médio porte, onde a fundadora costuma ter exercido todos os papéis nos primeiros anos e nunca formalizou quais deles deveriam ser transferidos conforme o negócio cresceu.

A saída que Alessandra propõe começa por um exercício de classificação, não de delegação. "Antes de perguntar para quem vou passar isso, a empresária precisa perguntar: isso aqui é uma decisão estratégica ou é uma tarefa operacional com cara de decisão importante?" A diferença entre as duas pode significar horas de trabalho deslocado da liderança para atividades que não movem o negócio. "Liderança feminina aplicada ao negócio não é sobre estar em todo lugar. É sobre estar no lugar certo, com o peso certo, na hora certa."

Para a CEO da Anima Impacto, o dado de crescimento no empreendedorismo feminino é motivo de celebração, mas precisa ser acompanhado de uma mudança na conversa sobre o que significa liderar bem. "A gente comemorou a abertura de empresas. Agora precisa comemorar a sustentabilidade delas. E isso passa, necessariamente, por empresárias que aprendem a ocupar o lugar de líder sem precisar ocupar todos os outros lugares ao mesmo tempo."


Fonte: Alessandra Freitas - CEO Anima Impacto Consultoria

 

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