Decisões que antes eram exclusivamente humanas já estão sendo influenciadas por sistemas de inteligência artificial dentro das empresas. Processos de contratação, concessão de crédito e priorização de atendimento estão entre os exemplos mais comuns.
O problema é que, em muitos casos, essas decisões não conseguem ser explicadas de forma clara, nem mesmo por quem as utiliza.
Segundo Flávio Negrão, o avanço da inteligência artificial trouxe ganhos de eficiência, mas também elevou o nível de responsabilidade das organizações.
“Uma decisão pode ser tecnicamente correta e ainda assim não ser compreendida. Quando isso acontece, a empresa perde a capacidade de sustentar essa decisão no longo prazo”, afirma.
A inteligência artificial é utilizada hoje para analisar grandes volumes de dados e identificar padrões. Com isso, empresas conseguem prever comportamentos, automatizar processos e tomar decisões com mais velocidade.
Na prática, isso significa que algoritmos já influenciam quem avança em um processo seletivo, quais clientes recebem crédito e até quais atendimentos são priorizados em determinados contextos.
Esse tipo de lógica já começa a aparecer em diferentes frentes da gestão de pessoas, como avaliação de desempenho, definição de salários e acompanhamento de clima organizacional. À medida que essas decisões passam a ser influenciadas por sistemas, cresce também a necessidade de critérios claros e capacidade de explicação.
Quando não existe clareza sobre como a decisão foi tomada, aumenta a percepção de arbitrariedade, o que pode gerar desconfiança entre colaboradores, clientes e parceiros.
Sistemas de inteligência artificial são treinados a partir de dados históricos. Esses dados carregam padrões do passado, inclusive distorções e desigualdades.
Quando esses padrões são levados para escala, o impacto também cresce.
Em recrutamento, por exemplo, modelos podem favorecer perfis semelhantes aos já contratados. Em crédito, podem reforçar exclusões existentes ao priorizar determinados grupos.
“Os dados refletem o contexto em que foram gerados. Sem revisão crítica, a tecnologia tende a repetir esse contexto, mesmo quando ele já não faz mais sentido”, explica Negrão.
O uso de inteligência artificial não elimina a responsabilidade humana sobre as decisões. Pelo contrário, amplia.
A escolha de adotar um sistema, definir critérios e interpretar seus resultados continua sendo uma decisão da liderança.
Para o especialista, esse é um dos pontos mais negligenciados pelas empresas.
“Muitos líderes ainda tratam a inteligência artificial como uma ferramenta puramente técnica. Na prática, ela influencia decisões estratégicas e precisa ser tratada como tal”, afirma.
Entre os pontos que líderes precisam considerar estão:
quais dados foram utilizados no treinamento dos sistemas
como as decisões podem ser explicadas de forma clara
quem é impactado por essas decisões
como os resultados serão monitorados ao longo do tempo
O avanço do uso de inteligência artificial também vem sendo acompanhado por maior regulação. Na Europa, o AI Act estabelece regras para classificação de risco, exigência de transparência e auditoria de sistemas.
Empresas que operam internacionalmente ou que mantêm relações com parceiros europeus já começam a se adaptar a essas exigências.
A tendência é que a pressão por explicabilidade e governança aumente também em outros mercados.
Apesar do avanço da tecnologia, especialistas apontam que o principal desafio não está nos algoritmos, mas na forma como as empresas lidam com eles.
A inteligência artificial amplia a capacidade de decisão, mas não substitui a necessidade de critérios claros e responsabilidade.
No fim, decisões sobre pessoas continuam exigindo coerência entre contexto, critérios e impacto, especialmente em temas como remuneração, evolução de carreira e clima organizacional.
A Nortez atua apoiando empresas justamente na construção dessa base de decisão, combinando desenvolvimento de liderança com estruturação de práticas de gestão de pessoas, como cargos e salários e pesquisa de clima, para dar mais consistência às escolhas feitas no dia a dia.
Com a expansão do uso de inteligência artificial nas empresas, a discussão sobre algoritmos deixa de ser apenas técnica e passa a ocupar um espaço central na gestão e na estratégia.
Contribuiu para a matéria Flávio Negrão, especialista em propósito, desenvolvimento humano e sócio-fundador da Nortez, consultoria brasileira de desenvolvimento humano e gestão, com atuação em remuneração, desenvolvimento de times e líderes e estruturação de cargos e salários.
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LEONEL DA TRINDADE
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