"Empresas já usam inteligência artificial para decidir quem contratar, aprovar crédito e priorizar atendimentos, mas não sabem explicar como"

É o que diz o especialista em desenvolvimento humano e cofundador da Nortez, Flávio Negrão. Ele alerta para o risco de decisões automatizadas sem transparência e para a necessidade de maior preparo da liderança nas empresas

Por ANDRé LOBO
2 6 Min

Na imagem Flávio Negrão

Decisões que antes eram exclusivamente humanas já estão sendo influenciadas por sistemas de inteligência artificial dentro das empresas. Processos de contratação, concessão de crédito e priorização de atendimento estão entre os exemplos mais comuns.

O problema é que, em muitos casos, essas decisões não conseguem ser explicadas de forma clara, nem mesmo por quem as utiliza.

Segundo Flávio Negrão, o avanço da inteligência artificial trouxe ganhos de eficiência, mas também elevou o nível de responsabilidade das organizações.

“Uma decisão pode ser tecnicamente correta e ainda assim não ser compreendida. Quando isso acontece, a empresa perde a capacidade de sustentar essa decisão no longo prazo”, afirma.

O que está em jogo nas decisões com inteligência artificial

A inteligência artificial é utilizada hoje para analisar grandes volumes de dados e identificar padrões. Com isso, empresas conseguem prever comportamentos, automatizar processos e tomar decisões com mais velocidade.

Na prática, isso significa que algoritmos já influenciam quem avança em um processo seletivo, quais clientes recebem crédito e até quais atendimentos são priorizados em determinados contextos.

Esse tipo de lógica já começa a aparecer em diferentes frentes da gestão de pessoas, como avaliação de desempenho, definição de salários e acompanhamento de clima organizacional. À medida que essas decisões passam a ser influenciadas por sistemas, cresce também a necessidade de critérios claros e capacidade de explicação.

Quando não existe clareza sobre como a decisão foi tomada, aumenta a percepção de arbitrariedade, o que pode gerar desconfiança entre colaboradores, clientes e parceiros.

Por que algoritmos podem reproduzir vieses

Sistemas de inteligência artificial são treinados a partir de dados históricos. Esses dados carregam padrões do passado, inclusive distorções e desigualdades.

Quando esses padrões são levados para escala, o impacto também cresce.

Em recrutamento, por exemplo, modelos podem favorecer perfis semelhantes aos já contratados. Em crédito, podem reforçar exclusões existentes ao priorizar determinados grupos.

“Os dados refletem o contexto em que foram gerados. Sem revisão crítica, a tecnologia tende a repetir esse contexto, mesmo quando ele já não faz mais sentido”, explica Negrão.

O papel da liderança nas decisões automatizadas

O uso de inteligência artificial não elimina a responsabilidade humana sobre as decisões. Pelo contrário, amplia.

A escolha de adotar um sistema, definir critérios e interpretar seus resultados continua sendo uma decisão da liderança.

Para o especialista, esse é um dos pontos mais negligenciados pelas empresas.

“Muitos líderes ainda tratam a inteligência artificial como uma ferramenta puramente técnica. Na prática, ela influencia decisões estratégicas e precisa ser tratada como tal”, afirma.

Entre os pontos que líderes precisam considerar estão:

  • quais dados foram utilizados no treinamento dos sistemas

  • como as decisões podem ser explicadas de forma clara

  • quem é impactado por essas decisões

  • como os resultados serão monitorados ao longo do tempo

Regulamentação aumenta pressão por transparência

O avanço do uso de inteligência artificial também vem sendo acompanhado por maior regulação. Na Europa, o AI Act estabelece regras para classificação de risco, exigência de transparência e auditoria de sistemas.

Empresas que operam internacionalmente ou que mantêm relações com parceiros europeus já começam a se adaptar a essas exigências.

A tendência é que a pressão por explicabilidade e governança aumente também em outros mercados.

Decisão continua sendo humana

Apesar do avanço da tecnologia, especialistas apontam que o principal desafio não está nos algoritmos, mas na forma como as empresas lidam com eles.

A inteligência artificial amplia a capacidade de decisão, mas não substitui a necessidade de critérios claros e responsabilidade.

No fim, decisões sobre pessoas continuam exigindo coerência entre contexto, critérios e impacto, especialmente em temas como remuneração, evolução de carreira e clima organizacional.

A Nortez atua apoiando empresas justamente na construção dessa base de decisão, combinando desenvolvimento de liderança com estruturação de práticas de gestão de pessoas, como cargos e salários e pesquisa de clima, para dar mais consistência às escolhas feitas no dia a dia.

Com a expansão do uso de inteligência artificial nas empresas, a discussão sobre algoritmos deixa de ser apenas técnica e passa a ocupar um espaço central na gestão e na estratégia. Contribuiu para a matéria Flávio Negrão, especialista em propósito, desenvolvimento humano e sócio-fundador da Nortez, consultoria brasileira de desenvolvimento humano e gestão, com atuação em remuneração, desenvolvimento de times e líderes e estruturação de cargos e salários. nortez.com.br
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