IA integrada a prontuários médicos passa a apoiar profissionais de saúde no SUS

Funcionalidade, que está em fase de testes, organiza o histórico dos pacientes e emite alertas clínicos para apoiar equipes médicas durante atendimentos na atenção básica

Por GUILHERME SIMON
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A inteligência artificial começa a ganhar espaço no atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) como ferramenta de apoio à decisão clínica na atenção básica. Desenvolvida pela Betha Sistemas, govtech especializada na transformação digital da gestão pública e presente em 22 estados do país, uma funcionalidade que utiliza a tecnologia está em fase de testes para operar integrada ao prontuário eletrônico, possibilitando que médicos e equipes de saúde acessem automaticamente o histórico dos pacientes e recebam resumos e alertas clínicos durante a consulta, com foco na segurança e agilidade do atendimento. 

A solução, que começou a ser utilizada em dezembro de 2025, em Santa Cruz do Sul (RS), em projeto piloto com equipes da rede municipal de saúde, facilita a busca por informações clínicas relevantes e emite alertas como possíveis interações medicamentosas e superdosagem de medicamentos durante os atendimentos, o médico pode interagir com a inteligência artificial para acessar os dados de forma rápida e estruturada, reduzindo riscos associados a prescrições e decisões tomadas sob restrição de tempo. A nova tecnologia integra a solução de saúde da Betha Sistemas, que já  é utilizada por 159 municípios e registrou mais de 5 milhões de atendimentos em 2024.

Segundo a coordenadora da unidade de negócios da Betha Sistemas, Maitê dos Passos, a ferramenta atua diretamente sobre os dados já registrados no sistema de saúde, sem exigir mudanças no fluxo de trabalho dos profissionais. “O SUS já gera uma quantidade enorme de informação. O desafio é usar esses dados para qualificar o cuidado, e não apenas para registro administrativo. O que a ferramenta oferece é tornar essa informação utilizável no tempo real da consulta, sem sobrecarregar o profissional”, comenta Maitê.

Ainda de acordo com ela, a solução foi desenhada para atuar como ferramenta de apoio, sem interferir no diagnóstico ou na decisão clínica. “Não faz sentido uma IA dizer ao médico o que ele deve fazer. O foco é apoiar o raciocínio clínico e reduzir a chance de erros que acontecem por falta de tempo ou de acesso à informação”, complementa.

Dados da pesquisa TIC Saúde 2024, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), indicam que o uso de inteligência artificial ainda é limitado na prática médica. Apenas 17% dos médicos utilizam IA em suas rotinas profissionais e, nos estabelecimentos públicos, esse índice cai para 14%. Entre os serviços de saúde, apenas 4% fazem uso de inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que 92% das unidades de saúde já utilizam sistemas eletrônicos de registro, o que evidencia um cenário em que as informações estão amplamente digitalizadas, mas nem sempre acessíveis ou organizadas de forma a apoiar a decisão clínica no momento da consulta. “Esse contexto cria um ambiente favorável para soluções que transformem dados já disponíveis em suporte efetivo ao atendimento”, pontua Maitê.

IA resume histórico clínico e alerta sobre interações medicamentosas 

Uma das principais funcionalidades da IA incorporada pela Betha à solução de Saúde é a geração automática de resumos do prontuário, que consolidam anos de registros clínicos, atendimentos anteriores, diagnósticos e uso de medicamentos. Em vez de percorrer manualmente dezenas de registros, o profissional passa a ter uma visão sintética do histórico do paciente.

De acordo com Maitê, em atendimentos de poucos minutos, o resumo permite acessar rapidamente informações relevantes que poderiam passar despercebidas em meio a vários prontuários. “Essa funcionalidade é acionada conforme a necessidade do atendimento. Em casos simples, o profissional pode optar por não consultar o histórico completo; em atendimentos mais complexos, a IA funciona como um facilitador da análise clínica”, explica.

Além do acesso ao histórico, a tecnologia atua de forma automática na identificação de interações medicamentosas e possíveis superdosagens. Durante a prescrição, o sistema analisa os medicamentos já registrados no prontuário e sinaliza riscos quando há combinações incompatíveis ou doses inadequadas para o perfil do paciente.

“Muitas vezes o paciente não se lembra de todos os medicamentos que utiliza, ou não associa um tratamento antigo à consulta atual. O alerta ajuda a evitar erros que podem gerar reações adversas e até internações”, afirma Maitê. Os avisos são apresentados durante o atendimento, permitindo que o profissional ajuste a prescrição de forma imediata, caso considere necessário.

Em cidade-piloto, IA ajuda profissionais a tomar decisões com mais segurança

A experiência inicial em Santa Cruz do Sul, município gaúcho da região do Vale do Rio Pardo, com cerca de 130 mil habitantes, tem servido para avaliar, na prática, como o uso da inteligência artificial pode contribuir para a agilidade das consultas, a segurança do paciente e a qualificação do cuidado na atenção básica.

Segundo a médica Cleuciane Venzke Zell, responsável pelo acompanhamento da ferramenta na prefeitura de Santa Cruz do Sul, os primeiros retornos indicam ganhos principalmente na organização das informações clínicas durante o atendimento.

 “O acesso mais rápido ao histórico do paciente tem ajudado os médicos a tomar decisões com mais segurança, especialmente em consultas com prontuários extensos. Os alertas clínicos também contribuem para aumentar a atenção às prescrições”, afirma.

Somente no primeiro semestre de 2025, a rede municipal de saúde de Santa Cruz do Sul registrou mais de 280 mil atendimentos na atenção básica, considerando unidades básicas de saúde e estratégias de saúde da família, além de milhares de atendimentos em serviços como CAPS, ambulatórios especializados e plantões noturnos . “No segundo semestre, esse volume se manteve elevado, com mais de 285 mil atendimentos nesses mesmos pontos da rede, evidenciando a complexidade e a intensidade do fluxo assistencial em que a tecnologia está sendo testada”, complementa Cleuciane.

A funcionalidade utiliza múltiplos modelos de inteligência artificial, selecionados conforme o tipo de tarefa -  como análise de histórico, geração de resumos ou validações clínicas. O desenvolvimento passa por testes internos contínuos, com ajustes baseados em desempenho, tempo de resposta e precisão das informações. Atualmente, a solução está em fase de testes controlados, com uso em ambiente real de atendimento. As próximas etapas envolvem a definição de cronograma de expansão e a ampliação gradual do uso em outros municípios.


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