Casa deixa de ser cenário e volta a refletir a vida real

Arquitetos observam busca por ambientes mais pessoais, ligados à memória, ao conforto e à rotina dos moradores

Por BIANCA BRITO
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Felipe Araújo/Divulgação

Depois de um período em que muitas casas passaram a seguir referências parecidas entre si, arquitetos têm observado uma mudança na forma como os clientes enxergam os próprios espaços. Ambientes pensados apenas para acompanhar tendências ou funcionar bem nas fotos começam a dar lugar a projetos mais ligados à rotina, ao conforto e à personalidade de quem vive ali.
A mudança aparece em detalhes que antes nem sempre eram prioridade dentro dos projetos. Peças herdadas de família, obras de arte escolhidas ao longo do tempo, livros, materiais naturais e ambientes voltados ao convívio passaram a ocupar um lugar mais importante na casa. Aos poucos, os espaços deixam de seguir uma lógica muito padronizada e começam a refletir melhor a história e a rotina de quem mora ali.
O movimento acompanha uma discussão que vem crescendo também fora do Brasil. Em meio ao desgaste de referências muito padronizadas nas redes sociais, estudos recentes sobre comportamento e moradia apontam uma busca maior por casas ligadas ao conforto, à personalidade e ao sentimento de pertencimento. Um estudo acadêmico publicado em 2025, “Space to Place, Housing to Home”, reforça justamente a ideia da casa como construção emocional e afetiva, mostrando que as pessoas valorizam cada vez mais identificação emocional e sensação de pertencimento nos ambientes domésticos. Em vez de espaços montados como cenário, cresce o interesse por ambientes que pareçam vividos de fato.
"O que vejo hoje é um interesse maior por casas que acompanhem o tempo, e não espaços pensados para um momento específico ou para uma tendência que estão em alta. As pessoas querem ambientes que continuem fazendo sentido daqui dez ou quinze anos. Isso aparece na escolha de materiais mais naturais, em pisos menos frios, na presença da madeira, em iluminações mais suaves e em soluções que deixam a casa mais confortável no dia a dia ”, afirma o arquiteto Olegário de Sá.
A arquiteta Babi Teixeira observa uma busca por projetos que tenham identidade e relação com a vida dos moradores. “Hoje, muitos clientes querem ambientes que contem a própria história. Isso aparece na mistura entre peças novas e móveis de antiquário, em porta-retratos espalhados pela casa, livros usados no dia a dia, objetos trazidos de viagens e até em composições menos previsíveis de tecidos, estampas e materiais. Existe uma vontade maior de criar espaços que tenham memória e personalidade, sem aquela preocupação de tudo parecer perfeitamente coordenado”, comenta. Com mais de 20 anos de carreira, Cassiana Miranda nota que o conforto passou a orientar decisões que antes eram guiadas principalmente pela estética. “As pessoas estão mais tempo em casa e isso muda as prioridades. Sofás mais profundos, iluminação mais acolhedora e móveis duráveis passaram a ter um peso maior do que soluções muito cenográficas. Vejo também uma procura por tapetes maiores, cortinas mais encorpadas, que tragam sensação de aconchego e deixem os ambientes mais acolhedores no dia a dia”, afirma.
A arquiteta Camila Strang também observa uma mudança na relação dos clientes com o tempo dentro de casa. “As pessoas querem usar a casa de verdade, receber amigos sem formalidade, deixar os filhos ocuparem os espaços, cozinhar mais, sentar no chão, misturar referências que foram sendo construídas ao longo da vida. Vejo clientes mais interessados em projetos que acompanhem a dinâmica da família do que em ambientes excessivamente montados ou padronizados”, diz.

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