Fabio Manzione celebra duas décadas de carreira com 'Caroço', seu primeiro álbum autoral dedicado aos ritmos brasileiros
Com arranjos de Rodrigo Caçapa e raízes na música popular brasileira, compositor Fabio Manzione estreia álbum autoral após mais de 20 anos em projetos artísticos coletivos
Daniela Berzuini
Depois de mais de duas décadas de carreira dedicada a projetos coletivos como o trio instrumental Maitaca e o projeto Bach à Brasileira, o compositor, instrumentista e escritor Fabio Manzione apresenta "Caroço", seu primeiro álbum autoral. O disco reúne doze faixas construídas sobre ritmos de tradição oral brasileira — samba, frevo e xaxado — com arranjos fortemente referenciados nos timbres e toques da música, assinados pelo compositor e pesquisador pernambucano Rodrigo Caçapa.
Manzione conta que após anos dedicado a projetos artísticos coletivos, contribuindo como arranjador e compositor, sentiu que era o momento de trazer para o público um material que já vinha amadurecendo há tempos. Desde sua adolescência, quando começou a estudar música, sempre buscou desafios como artista.
“E compor me traz esse desafio no âmbito artístico. Ter um trabalho autoral solo, feito quase todo por mim, tem a ver com essa vontade também. Sempre fui muito afeito à parte da escrita também. E reunir essas duas paixões, que são a música e a escrita, é algo que eu tinha feito pouco, já que quase todos os meus trabalhos são baseados em música instrumental. Por isso, acredito que o principal motivo para lançar o álbum foi tentar juntar duas paixões e trazê-las para o mundo”, detalha Fabio Manzione.
Dualidade
O título do álbum, ‘Caroço’, nasce de uma imagem simples e ambígua: o caroço, aquilo que incomoda ao ser mastigado, mas que é também o núcleo gerador do próprio alimento. Essa dualidade atravessa as letras das doze faixas, que tratam do preconceito linguístico e das atitudes veladas que ele carrega, do hiperestímulo das máquinas, mídias e do mercado que distraem das coisas essenciais, e da dificuldade contemporânea de assumir falhas diante de um mundo que parece não permitir erros.
"Escolhi 'Caroço' porque é essa a sensação que quis carregar no disco inteiro: o que incomoda também sustenta. Duas músicas que apresentam bem essa dualidade são ‘Cuidado Frágil’ e ‘Preconceito Intolerante’. O sentido é o de mostrar o quanto uma pessoa pode, ao mesmo tempo, ter características consideradas defeitos, mas que, ao mesmo tempo, ela é única. De trazer a ideia de que nós não somos só um”, pontua o artista.
Parcerias
Gravado entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 no estúdio da Associação Cultural Cachuera — importante centro de pesquisa e difusão da música brasileira de tradição oral, em São Paulo —, o álbum tem arranjos assinados por Rodrigo Caçapa, compositor, violeiro e pesquisador radicado em São Paulo, vencedor do Prêmio Especial de Inovação no Voa Viola: Festival Nacional de Viola.
A instrumentação, composta por voz, violão, rabeca, bandolim, violão de sete cordas, percussão e contrabaixo acústico, reúne Bruno Menegatti (rabeca), Franci Oliver e Rômulo Nardes (percussão) e Vanessa Ferreira (contrabaixo), além do próprio Fabio Manzione ao violão, aos vocais e à percussão.
O disco conta ainda com as participações especiais de três artistas-pesquisadoras da música brasileira: Paola Pichersky (violão de sete cordas), Mazé Cintra e Neila Khadí (voz). "Cada uma dessas parcerias trouxe uma camada de pesquisa e de vivência que eu não teria sozinho".
Literatura e poesia
Entre as faixas do álbum está uma canção dedicada ao preconceito linguístico — tema que Manzione aborda a partir de observações sobre as atitudes veladas de discriminação presentes na fala cotidiana brasileira. Apaixonado por literatura e poesia, admite que se aventurou nesses universos para compor as canções.
"A ideia foi destacar o que fazemos com a língua, com as palavras, o poder de improvisar sobre o que a gente vai dizer, ou seja, desde que a mensagem chegue, a gente pode escolher muitos jeitos de falar. Quis dar forma de canção a algo que a gente naturaliza no dia a dia, sem perceber o quanto machuca", exemplifica o músico.
Reflexão artística
"Caroço" chega como um retrato de duas décadas de pesquisa musical convertidas em obra autoral — um convite a mastigar o desconfortável para chegar ao essencial.
“Esse álbum foi feito com muito carinho, eu adorei compor as músicas e trabalhar com todos esses artistas. Ele é uma síntese sobre o que penso sobre o ser humano, a arte no brasil, sobre música brasileira, sobre a vida e suas dualidades. Desejo que o público tenha com o álbum não só o momento de apreciação artística, como também de análise sobre o que estamos vivendo”, declara.
Shows
O público poderá conferir ao vivo as canções do álbum ‘Caroço’ em shows em São Paulo. “Algumas apresentações serão no formato voz e violão intercalando com um bate-papo sobre o processo de criação e gravação do álbum”, detalha Manzione. O primeiro show do pré-lançamento será dia 29/08, às 16h30, no Sebo Nonada, no Butantã, em São Paulo, com entrada franca. Acompanhe a programação de shows e novidades sobre o trabalho de Fabio Manzione no Instagram: @fabio.manzione
O álbum
O álbum ‘Caroço’ estará disponível a partir de 29/11 nas principais plataformas digitais, inclusive no BandCamp https://fabiomanzione.bandcamp.com/album/caro-o
As faixas são: 1. Nem Polícia Nem Ladrão · 2. Caroço · 3. Touch Skin · 4. Amareloágua · 5. Cuidado Frágil (ou o Frevo Manifesto do Héterotop Arrependido) · 6. A Par · 7. A Moda · 8. Vazantes · 9. É · 10. Preconceito Intolerante (ou Samba do Pleonasmo) · 11. Solamente · 12. QI
FICHA TÉCNICA Artista: Fabio Manzione Álbum: Caroço Arranjos: Rodrigo Caçapa Músicos: Bruno Menegatti (rabeca), Franci Oliver e Rômulo Nardes (percussão), Vanessa Ferreira (contrabaixo) Participações especiais: Paola Pichersky (violão de sete cordas), Mazé Cintra e Neila Khadí (voz) Gravação: Estúdio da Associação Cultural Cachuera, São Paulo — outubro/2025 a janeiro/2026
Fotografia: Daniela Berzuini
SOBRE FABIO MANZIONE: Compositor, instrumentista, escritor e performer, Fabio Manzione compõe trilhas para cinema, teatro e espetáculos de dança e integra o trio de música instrumental Maitaca e o projeto Bach à Brasileira. Doutor em Música pela Universidade de São Paulo (USP) e cofundador do espaço cultural Jardim das Máquinas, publicou em 2016 o livro-objeto (sem título) e apresentou as performances "História de uma Linha Só" e "Limit-ações" em espaços do Brasil e da Argentina. Desde o início da carreira, em 2004, dedica-se à pesquisa dos ritmos tradicionais das regiões Sudeste e Nordeste, valorizando os saberes da cultura popular brasileira.
SOBRE RODRIGO CAÇAPA (ARRANJOS): Compositor, arranjador, produtor musical, violeiro, percussionista e pesquisador nascido no Recife em 1975 e radicado em São Paulo desde 2014, Caçapa lançou o álbum "Elefantes na Rua Nova" (2011), com patrocínio do Petrobras Cultural, e recebeu o Prêmio Especial de Inovação no Voa Viola: Festival Nacional de Viola (2012). Publicou o livro digital "Violas Eletrodinâmicas: um Manual de Construção" (2019), com apoio do programa Rumos Itaú Cultural.
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