A cada novembro, o Mês da Consciência Negra convoca o país a revisitar a própria história e as estruturas que seguem produzindo desigualdades. No futebol — espaço onde corpos negros sempre estiveram presentes e fundamentais — ainda persiste um vazio simbólico e político quando o assunto é liderança. No Campeonato Brasileiro de 2025, há apenas um técnico negro, Jair Ventura, do Vitória - Roger Machado foi demitido na 24ª rodada . A cena se repete em diretorias, comissões técnicas, coordenações de base e cargos estratégicos: o protagonismo negro se limita, majoritariamente, ao campo.
É nesse debate que se insere o trabalho de Cleiton Carvalho, coach e vice-presidente do projeto Mover Futebol. Sua atuação parte de um ponto simples: não basta que atletas negros sejam protagonistas dentro de campo se continuam ausentes dos lugares onde decisões são tomadas. Para Cleiton, formar jogadores é importante, mas formar lideranças negras conscientes é o que transforma trajetórias individuais em transformação coletiva.
“A história do futebol brasileiro é atravessada pela genialidade de atletas negros, mas a estrutura que decide, planeja e lucra permanece majoritariamente branca. Se não discutirmos isso, naturalizamos o desequilíbrio”, afirma.
Sua atuação junto a atletas — como Luiz Henrique, hoje no Zenit, e o jovem Wallace Yan, do Flamengo — não se limita ao desempenho esportivo. Cleiton trabalha a relação com origem, autoestima e responsabilidade simbólica: o atleta negro é uma referência comunitária, mesmo quando não deseja sê-lo.
O debate se torna ainda mais urgente em um cenário de forte presença de casas de apostas no futebol brasileiro. Essas empresas, hoje onipresentes em patrocínios e campanhas publicitárias, frequentemente utilizam jovens atletas negros como vitrines de sucesso e ascensão.
“Se historicamente o corpo negro foi explorado como força de trabalho, agora sua imagem é capitalizada como promessa”, analisa Cleiton. “Quando um atleta preto empresta sua figura para uma indústria que lucra sobre o desespero das periferias, precisamos perguntar: o que ele está ajudando a legitimar?”
Para grande parte da juventude negra, marcada por desigualdades estruturais, a aposta não se apresenta como entretenimento, mas como chance de fuga — uma narrativa de ascensão imediata que raramente se concretiza.
O atleta, nesse contexto, torna-se mais do que jogador: torna-se instrumento simbólico.
O Mover Futebol nasce como resposta a esse cenário: formar atletas, treinadores, gestores e profissionais negros que compreendam seu lugar na história do futebol e possam atuar com autonomia — dentro e fora das quatro linhas.
Não se trata de heroísmo individual, nem de solução rápida. É um processo de reconhecimento, estruturação e disputa de espaços.
“O futebol brasileiro deve muito à população negra — em talento, em cultura, em identidade. O que está em falta não é mérito, é acesso”, sintetiza Cleiton.
Em um mês dedicado à memória e à resistência negra, o debate proposto por Cleiton aponta para uma urgência que o futebol ainda hesita em enfrentar: a presença negra precisa deixar de ser corpo e passar a ser voz, projeto, comando e futuro.
Sobre
Formado em Coaching e Inteligência Emocional pela Federação Brasileira de Coaching Integral Sistêmico, Cleiton foi instrutor e líder na Marinha do Brasil antes de direcionar sua carreira ao futebol. Hoje, é considerado uma das principais referências em performance mental no esporte, atuando tanto na base quanto entre atletas profissionais. É o vice-presidente do Mover Futebol. Instagram: @eusoucleitoncarvalho
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ANA CAROLINE DA SILVA TEBERGA GALVAO
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