A uma semana do Copom, juros voltam ao nível que já dobrou fortunas na renda fixa na última década

Com decisão do Banco Central marcada para próxima semana, especialista lembra que a Selic está no mesmo patamar em que iniciou, há dez anos, um dos ciclos de valorização mais expressivos da história da renda fixa brasileira

Por TARCISO SOUZA
1 8 Min

A uma semana do Copom, juros voltam ao nível que já dobrou fortunas na renda fixa na última década
Jakub Żerdzicki/ Unsplash
Quando os diretores do Banco Central se reunirem no dia 5 de agosto para decidir a condução da política de juros, um novo ciclo de ganhos na renda fixa pode recomeçar. A taxa está em 14,25% ao ano, o mesmo nível de setembro de 2016, início da queda que levou títulos de renda fixa a se valorizarem de forma expressiva nos anos seguintes.

Entre meados de 2015 e outubro de 2016, a Selic ficou parada neste patamar que se encontra atualmente. Ao iniciar um longo período de cortes sucessivos, que levou a taxa básica para 6,5% ao ano em março de 2018, o menor patamar da série histórica até aquele momento, o Banco Central estimulou a retomada econômica do Brasil. No mercado secundário de títulos prefixados de 5 anos, por exemplo, nos meses que seguiram, com a taxa dos títulos caindo de 9,93% para 9,00%, esses papéis renderam 16,61% brutos no ano, bem acima da própria variação da taxa.  Já os papéis atrelados à inflação de mesmo prazo renderam 12,37% no período, e o Ibovespa subiu 15,03%, puxado pela combinação de juros em queda com inflação sob controle.


O ganho vem da soma de dois efeitos: a marcação a mercado, que é a valorização do título no mercado secundário quando os juros caem, e o carrego, a taxa que o investidor já garantiu no momento da compra, independentemente de qualquer oscilação de preço pelo caminho.

"O ciclo de 2015 a 2018 é o retrato mais próximo do que estamos vivendo agora. Quem ficou só no CDI ganhou bem, sem dúvida. Mas aquelas pessoas que usaram o prefixado e o IPCA+ de forma estratégica multiplicaram o capital, com o mesmo risco de crédito", lembra Roberto Pereira, CEO da ATEX Investimentos, especialista em planejamento financeiro e investimentos. "Olhar para o passado é importante para compreender como o mercado se comporta em momentos assim. Ninguém garante uma repetição exata do que vivemos, mas o mecanismo por trás é o mesmo, e estamos no mesmo ponto de partida de dez anos atrás", explica o gestor.

O Brasil criou uma geração inteira acostumada a juros de dois dígitos. Durante décadas, bastou deixar o dinheiro parado em um CDB ou no Tesouro Selic para viver de renda com folga. Até mesmo a velha caderneta de poupança entregava um rendimento significativo para a baixa complexidade e risco que representa. Esse hábito formou o que Roberto chama de rentista passivo, alguém que, nas palavras dele, “aceita qualquer rendimento nominal como sinônimo de segurança”, sem perguntar se aquele número ainda é bom o suficiente para o cenário atual.

"O problema não é o rentista passivo estar errado. É que ele parou no tempo. Aprendeu a regra do jogo lá dos pais, tios e avós e, literalmente, não percebeu que hoje existem novos produtos financeiros com igual ou maior proteção, que oferecem oportunidades melhores para multiplicar o capital investido com segurança e liquidez", argumenta Roberto.

Do outro lado está o rentista estratégico, que usa a renda fixa não só para preservar patrimônio, mas para fazer esse dinheiro crescer de forma ativa, o mesmo movimento que permitiu alcançar resultados de 16,61% a quem soube ler o ciclo anterior. E, para chegar a rendimentos elevados sem correr mais risco, a recomendação é uma só: conhecimento sobre o que compõe a carteira.

O mecanismo por trás do exemplo de 2018 é simples de entender, mesmo sendo pouco discutido. Quando a Selic cai, os títulos comprados antes do corte passam a valer mais no mercado secundário. É parecido com quem financia um imóvel e o revende antes de quitar o financiamento. Se o imóvel valorizou no caminho, o vendedor embolsa esse ganho na hora da venda, não precisa esperar a última parcela chegar.

Com títulos de renda fixa funciona de forma parecida. Quem vende um título valorizado antes do vencimento e reinveste esse ganho em uma nova posição, em vez de simplesmente esperar o prazo final, faz o resultado se acumular. A cada novo corte de juros, o processo pode se repetir, ampliando o ganho sobre um mesmo investimento.

Na prática, isso se traduz em quatro movimentos, segundo o especialista: "Saber quando travar uma taxa longa e quando manter liquidez; entender quanto os títulos mais longos balançam com o mercado, calibrando essa oscilação ao perfil de cada família; vender no momento certo, não só esperar o vencimento; e organizar o patrimônio em títulos com vencimentos espalhados, como gavetas que abrem em datas diferentes. Nenhuma dessas coisas exige assumir mais risco de crédito, mas entender melhor o mesmo risco que o investidor já aceita há anos", reforça Roberto.

"O mercado projeta a Selic perto de 13,50% ao ano até dezembro de 2026, o que significa que cada nova reunião do Copom pode reabrir essa mesma oportunidade para quem já entendeu o mecanismo da renda fixa", alerta o especialista.
Uma faixa relevante de produtos de renda fixa, como debêntures incentivadas ligadas a projetos de infraestrutura, certos CRIs e CRAs e fundos fechados, é restrita por regulação da CVM a investidores qualificados, que precisam comprovar pelo menos R$1 milhão aplicados, ou a investidores profissionais, com R$10 milhões. Boa parte das corretoras de varejo nem chegam a oferecer essas alternativas, porque exigem mais estrutura de compliance para distribuir.

"Não é só desconhecimento. Às vezes o investidor até sabe que aquele produto existe, mas ele simplesmente não está disponível na plataforma que usa, ou exige uma qualificação que não tem sozinho. É aí que entra o papel de quem acompanha o mercado de perto", afirma Roberto. Explicando que cabe aos assessores de investimentos, casas especializadas no assunto, orientar quem deseja poupar e otimizar os ganhos.

A renda fixa também pode estruturar o futuro de quem quer complementar a aposentadoria e depender menos do INSS, lembra o especialista. Ele argumenta que o erro mais comum nesse planejamento é pensar apenas na taxa de rendimento, sem considerar quanto dinheiro vai precisar sair todo mês no futuro, corrigido pela inflação.

"Aposentadoria não é uma taxa, é um fluxo de caixa. É pensar em quanto vai precisar em vinte, trinta anos, e organizar os vencimentos dos títulos pra bater com essa necessidade", explica Roberto Pereira.

A decisão do Copom sai em menos de uma semana, e é esse intervalo que separa quem vai aproveitar o próximo movimento de quem só vai perceber a oportunidade depois que a janela já tiver fechado.

Roberto Pereira

Roberto Pereira é especialista em finanças e investimentos, com MBA em Investimentos e Private Banking pelo IBMEC/SP. É fundador da ATEX Investimentos, assessoria sediada em Blumenau (SC) e credenciada à EQI Corretora, do Grupo BTG Pactual, que em menos de três anos captou mais de 2 mil clientes ativos e cerca de R$ 300 milhões sob custódia, com atuação em assessoria de investimentos, planejamento financeiro e gestão de patrimônio.
 

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TARCISO ANTUNES SOUZA
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