Programa Reencontro chega a 1.358 saídas qualificadas: a cada quatro pessoas acolhidas, uma conquista sua autonomia

Serviço de moradia transitória soma 5.323 pessoas acolhidas desde 2022

Por AMANDA CRISTINA
1 8 Min

SMADS

Foto: Nandara sendo beijada no rosto por Kevin e Taty, que fazem parte do corpo técnico da Vila Guaianases/Arquivo pessoal 

Jennyfer Reis  

Programa Reencontro já contabiliza 1.358 saídas qualificadas desde sua criação, em 2022, um resultado que representa cerca de uma em cada quatro pessoas entre as 5.323 acolhidas nas Vilas Reencontro ao longo do período. Somente em 2026, até 27 de julho, o programa já registrou 436 novas saídas qualificadas

A saída qualificada ocorre quando a pessoa acolhida conquista moradia autônoma, retoma a convivência com a família (nuclear ou extensa) ou se insere no mercado de trabalho. Foi exatamente isso que Nandara Caroline Cabral de Brito, 30, viveu, depois de mais de um ano acolhida na Vila Reencontro Guaianases, ela conquistou recentemente sua própria moradia, fechando um ciclo que também trouxe de volta o convívio com os filhos e um novo emprego. 

A trajetória até ali não foi simples. Nandara viveu um relacionamento abusivo e um histórico de violência doméstica que a levou a um ciclo de uso abusivo de substâncias, como forma de lidar com a dor. 

“Eu queria que minha mente sumisse, por isso escolhi usar o crack. Eu sabia que era pesado, mas fui mesmo assim. Eu estava doente mentalmente”, relembra. 

Diante da situação, o Conselho Tutelar afastou de Nandara a guarda de seus dois filhos mais velhos, hoje com 10 e 7 anos, encaminhados ao SAICA (Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes), modalidade da rede socioassistencial que acolhe, de forma provisória, crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social, até que seja possível o retorno à família de origem, extensa ou substituta.  

A perda da guarda agravou o quadro, Nandara passou a viver na rua, onde engravidou de Eloah, hoje com dois anos, em uma gestação marcada por dificuldades. A virada começou com uma abordagem da equipe de rua, quando Nandara decidiu buscar ajuda qualificada. 

“Entenderam minha história, e fui fazer o tratamento no CAPS, com redução de danos. Cheguei no CAE - Centro de Acolhida Especial para Mulheres, onde Nandara ficou acolhida provisoriamente durante os primeiros meses de vida de Eloah, até ser encaminhada à Vila Reencontro - com 15 dias limpa, e fui acolhida com muito carinho”, conta. 

Na rede socioassistêncial, Nandara passou a contar com acompanhamento intersetorial da equipe técnica em articulação com a Saúde, incluindo suporte psicológico contínuo até o fim da gestação. 

“Assim que minha bebê nasceu, eles já colocaram um berçinho do meu lado. Isso foi muito bom”, relembra. 

Reconexão familiar: um dos eixos centrais da rede socioassistencial 

Após o nascimento de Eloah, Nandara foi encaminhada para a Vila Reencontro Guaianases, onde permaneceu até o fim de sua trajetória na rede de acolhimento.  

Ela conta que a equipe da Vila acompanhou o processo de recuperação da guarda dos filhos mais velhos, produzindo relatórios sobre sua evolução, viabilizando visitas e, com o suporte da equipe no cuidado das crianças, ajudou Nandara a conciliar trabalho e maternidade enquanto buscava uma recolocação profissional. A própria Vila intermediou sua contratação. 

“Os profissionais da Vila me ajudaram a fazer com que meus filhos se sentissem pertencentes a mim de novo. Me ajudaram muito a reconectar isso, me refiro a todos”, diz Nandara. 

Hoje, com os três filhos e moradia autônoma conquistados no mesmo ciclo, Nandara descreve uma relação reconstruída com abertura e confiança. 

“Tenho uma comunicação muito aberta com eles. Nossa conexão é muito forte, nosso vínculo é muito forte. Eu fiz más escolhas, meus pensamentos estavam doentes, e eu procurei ajuda no lugar errado. Meus filhos se lembram disso, mas tudo o que eles queriam era me ver bem, me ver melhorar”, afirma. 

“É um serviço extremamente necessário. Ainda havia chance para mim, mas sem esse serviço não seria possível. Foi uma sensação de dignidade, de pertencer à sociedade de novo”, resume Nandara, hoje, um dos 1.358 registros de saída qualificada do programa. 

Casos como o de Nandara acontecem dentro de uma estrutura pensada para isso: as Vilas Reencontro funcionam como serviço de moradia transitória da rede socioassistencial do município, voltado sobretudo a famílias que já estiveram em situação de rua. Ao oferecer um ambiente mais estável e estruturado, o serviço cria as condições para o fortalecimento de vínculos e para a reconstrução de projetos de vida, se consolidando como uma porta de saída do acolhimento da rede.  

Os dados refletem o impacto, 77% das saídas qualificadas do programa que se dão por conquista de moradia autônoma, exatamente o caminho percorrido por Nandara.

A atuação do programa é intersetorial, articulada a diferentes políticas públicas, como habitação, assistência e desenvolvimento social, direitos humanos e cidadania, saúde, trabalho e renda, educação, segurança alimentar e nutricional, cultura, esporte e lazer. 

Imigrantes nas Vilas Reencontro 

A presença de imigrantes entre as pessoas acolhidas também reforça o papel de São Paulo como cidade acolhedora. Alguns destaques do período: 

  • Em 2026, até 27 de julho, foram 136 saídas qualificadas de pessoas imigrantes, cerca de 31% de todas as saídas do período.  

  • Entre imigrantes, a moradia autônoma responde por quase 9 em cada 10 saídas qualificadas

  • Desde 2022, imigrantes já somam 290 saídas qualificadas no total acumulado do programa. 

Sobre o Programa Reencontro 

A rede de Vilas Reencontro soma hoje 4.252 vagas em 14 unidades. A expansão acompanha o crescimento da demanda: somente no primeiro semestre de 2026, foram acolhidas 3.485 pessoas, número que já supera o total registrado em qualquer ano completo anterior do programa, incluindo 2025 (3.251), 2024 (2.042), 2023 (695) e 2022 (81). 

Entre as 14 unidades, a Vila Reencontro Guaianases II é a que mais se destaca em saídas qualificadas: desde sua inauguração, acumula 178 saídas qualificadas entre 468 pessoas acolhidas, uma taxa de 38%, a maior entre todas as vilas em operação. 

Em junho, foi inaugurada a Vila Reencontro São Mateus I, ampliando a rede para 14 unidades.  

Estruturado em três eixos, conexão, cuidado e oportunidade, o Reencontro vai além da oferta de moradia: cursos profissionalizantes e outras estratégias de inclusão produtiva reforçam o compromisso do programa com a autonomia e a geração de renda. Do total de saídas qualificadas registradas desde a criação do programa, 77% correspondem à conquista de moradia autônoma13% a retorno à convivência familiar nuclear e 10% a retorno à convivência familiar extensa


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FONTE: Jennyfer Reis